segunda-feira, 17 de maio de 2010

que venha um plano a se realizar



Eu quero passear por esse jardim
quero sentar-me num gramado 
e desfrutar dos mais belos sorrisos
dos cheiros de fruta doce
do perfume das ninféias
do colorido de uma pintura

Monet monet
que um dia coloriu o mundo
formou seu recanto
deu vida a singela arquitetura
recobriu de detalhes a folhagem
ao borrar uma tela em branco

Dia claro
brisa madura
frescor de tarde infinita
ricos segundos
inesquecíveis flashes
representando um ciclo
um cinco

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Uma volta em 30 segundos

Cabeça de alho
desfacelado em mil facetas
de uma história mal contada

Hambúrgueres que entopem
a boca de uma criança obesa
Sobras e restos de comida no ralo da pia


Quedas repentinas de um bebê
que aprende a andar,
amortecida pela fralda suja e pesada

Abelhas na areia,
ferroadas no pé
de quem acaba de chegar

Inhaca é uma ilha no sul do Moçambique
Inhaca é o sujo no pescoço suado
na dobra do cotovelo cansado
no calcanhar de quem nunca se vê

quarta-feira, 31 de março de 2010

Círculo ambulante

Giros pelo mundo
cabeça fora do lugar
giro, giro, giro
até cair de joelhos e vomitar

O mundo é ideal
enquanto giro,
tudo faz sentido
até parar de girar

Chão vira céu
Céu vira outro lugar
Inalcançável,
Embora nos pés

Gravitam o vestido,
os cabelos
Orbitam os olhos,
as mãos

Sangue na ponta dos dedos
Gigantes
Tornozelo em êxtase
Alavanca da maquinaria

Por que gritar?
Som da voz no giro
Por que calar?
Silêncio de tudo no movimento

Por que postar essa "poesia" (e é?)?
Por compartilhar sensações de infância que perpetuam no tempo.

quinta-feira, 18 de março de 2010

seca temporária


folhas jazem mortas no chão
decompõem-se
retornam à natureza

as raízes estão fincadas no solo
seguras, precisas,
a árvore não teme o arrancar

o vento não a ameaça
o tempo amadurece
estações a enriquecem


as mudanças são bem-vindas
os planos para o futuro
os frutos do amanhã

foto: Rosana Seager

domingo, 7 de março de 2010

esboço de um vermelho

é vermelho
o pisar na terra descalço de intenção
é vermelho
o gole do café quente atrás da cortina
é vermelho
o deitar do corpo na grama úmida
é vermelho
o aguardar do amanhecer no horizonte
é vermelho
o toque do tecido velho, puído de lembrança
é vermelho
o tato gélido da pedra no peito nu
é vermelho
o poder ver e em instantes perder
é vermelho
o espraiar-se no jardim em solidão
é vermelho
tudo que passou, tudo que passa
é vermelho
o saber das coisas e o medo do esquecimento
é vermelha
a estagnação do tempo preso no corpo mutável

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Água com açúcar

Uma cadeira de balanço movimenta-se gentilmente ao sabor da brisa que corta a varanda.
O jornal aguarda ser recolhido no batente da porta, deixando algumas folhas remexerem-se.
As cartas acumulam-se debaixo do tapete. As notícias estão ali, frescas, mas não serão lidas.
A madeira do chão está corroída, com frestas, afastadas umas das outras.
Uma abelha suga a mesa açucarada pelo suco derramado.
A poeira acumula-se no canto, formando um pequeno redemoinho de cabelos e sujeira.
O capim irregular acaricia a mureta em movimentos esparçados.
A porta entreaberta manifesta-se, batendo hora ou outra impulsionada pelo vento.
As cores perdem saturação e aproximam-se de um preto e branco acizentado.
Uma goteira na ponta do telhado, poça de água.
Um miado de dentro.
Um pio de fora.
Um ranger de baixo.
Um estrondo de cima.
Onde vivem?

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Peculiaridades

A vida pode ser tão divertida.

fazer bonequinho com a mão e o ponto escuro do teto
ver rostos nas manchas da madeira do armário
imaginar formas para as dobras do lençol
conversar consigo mesma em diferentes línguas
pegar as coisas com o dedo do pé
ter um cachorro imaginário
olhar o mundo de cabeça para baixo
fazer careta no espelho
ver filmes com legenda em coreano
imaginar-se num filme
conversar com as plantas
pegar chuva na praia
ter sono nos transportes públicos
olhar-se de cima