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quinta-feira, 28 de abril de 2011

foi assim

Um furacão passou pela estrada
espalhou sementes recém semeadas
deslocou árvores já enraizadas
transportou mentes acomodadas

Peguei carona nesta corrente de ar
e segui caminho diferente
inicio jornada pertinente
é a gênese de uma nova semente

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

sem sinal

um passo e meia volta
dois passos e um pra trás
indo e vindo
volta, revolta
estagnação

o que muda na curva?
será o retorno?
próxima a direita,
tempo indeterminado

abre-se o guarda-chuva
guarda-se do tempo corrido
do que se esvai nas horas a fio
no fio que tece o vazio

olha quem vem lá!
é o destino vadio
ergue-se no alto
atrás dos montes não se vê

um caminho incerto

olhos lince
ouvidos mudos
boca surda

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Ausente

Viver o agora
Sem ansiar o amanhã
Não é não sonhar
É ser sereno

Fazer planos para hoje
E acalmar a semana que vem
Não é ser preguiçoso
É não ser ansioso

Saborear cada momento
Usar lente de aumento
Não é ignorar o redor
É focar-se em precisão

O amanhã parece tentador
Mas só vem depois de hoje
Não tem como pular
São lacunas a serem preenchidas

Foi-se o tempo das cartas
O agora já vira segundos atrás
E um bilhete pode não ser lido
Devorado pela fome do mais

Esperamos sempre por respostas
Acostumamo-nos com o instantâneo
Mas não observamos a corrida do tempo
Não vivemos presente

Ausência de presença
Ausência de paciência
Ausência de intensidade
Ausência do viver.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Espiral

quando tudo estava inerte
quando tudo parecia fundir
era tempo de mudança
de um momento pra refletir

pensar nas coisas fixas
pensar em tudo estático
são acomodações vazias
são equilíbrios plásticos

acostuma-se a idéia
em permanecer-se em si mesma
em não ser reinventada
em seguir-se de um ponto

que ponto será esse?
será que é varrido com as enchentes?
será que se recria reticente?
ou dorme de repente?

se esquece do vazio
que ansia por encher-se
procura cômodos quentes
procura um nome a pertencer

são anônimas as contagens
regressivas para o instante
que será que vem vindo?
será grande ou pequeno?

será agora o ocorrido?
será preparo da mudança?
será um risco no vazio?
será pintura em tela fina?

aquarela ou tinta guache
cera ou pastel
numa cortina de seda
ou no estofado cor de mel

entranhadas nas costuras
são lembranças misturadas
repartidas nas almofadas
afundadas no colchão

encarar diferentes épocas
preparar-se para o porvir
ter certeza e segurança
de que o que virá: será

domingo, 5 de setembro de 2010

Cantos

O quando, que não onde,
chegou para ficar.
Entregou suas chaves,
procurou um canto para sentar.
Olhou por volta,
desconfiado, incomodado.
Os dias que passaram
viraram rotina,
distantes, embrulhados em pó.


Na quietude da noite,
na goteira pingando,
cada canto preenche-se de profundo suspiro.
Elevam-se para o espaço,
desencontram-se no ensejo de esbarrarem-se.
As notas suspensas no ar
de um dia que nunca foi
E quando será?
Onde foi que esqueci de estar?


Dentro de cada canto
há um choro, um pranto
que almeja, em coro, um canto
que reuna de tanto em tanto
aquele perdido acalanto.
As estrelas do teto
querem tanto brilhar
iluminar os sorrisos de outrora
Reinventar histórias do nunca
Lembrar de um tempo de criança
do açúcar no suco da mesa
do prato espatifado no chão.

Eram, e será que sim?
Será memória inventada,
será desejo partido?
Será tamanho egoísmo?
Será o umbigo maior?
ou são cantos e quandos
que esperam se unir,
formar uma sala,
um espaço comum?
Não olvide do quando agora,
o quando que será amanhã.
O quando de ontem ficou,
permaneceu,
já passou.

Senhores de cada um,
compartilhando um mesmo quando,
um mesmo onde.
É hora de compartilhar,
de estar,
de sonhar junto.
Cada qual no seu canto,
cada canto em seu lugar,
mas em torno de um mesmo objetivo:
unir vontades,
desejos,
construindo o conviver.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Édificil

A moça torta na janela esguia-se por espiar
Era tonta, era feia
era um bife de panela
refrito na manhã de segunda-feira

O rapaz do andar de cima ria-se por só rir
Era jovem, era alto
era um poeta do acaso
escrevia seus poemas sentado em seu vaso

O porteiro que varria o prédio esqueceu-se do remédio
Era velho, era cansado
era antigo no pedaço
fazia bodas no trabalho

A menininha chupava bala esperando o elevador
Era baixa, era irritante
era meio metro de gente
estalava a língua e cantava desafinado

Nas escadas, o encontro
Nariz torto, olhar pra baixo
contas vencidas, pingos de roupa lavada
cinzas de cigarro, livro de reclamações

Onde o síndico não tem voz
mas é chamado a todo instante
Onde as paredes escutam tudo
um trabalho desgastante

Vende-se, aluga-se,
um prato cheio de histórias,
que escorrem pelos antigos encanamentos
desembocam onde tudo sempre acaba